Asclépio - Heloisa Prieto
Apolo é um deus amado por todos: mortais, deuses ninfas,
animais, não há quem resista ao seu encanto e à sua luminosidade com uma única
exceção, como vocês bem sabem! Porém, eu, Cronos, deus do tempo e da sabedoria nem
sempre sou compreendido. Poucos conseguem perceber o encadeamento sutil dos
destinos, a estranha melodia da vida que transforma a existência ao longo dos
dias. Todo imortal sabe que cada acontecimento aos poucos ganhará um sentido,
como se fosse compondo uma espécie de mosaico mágico. Mas quando se tem os dias
contados pelo tempo cronológico da mortalidade, nem sempre se cultiva a
paciência observar os ensinamentos ocultos a cada desafio. Por isso, ao
contrário de minha terrível fama, confesso não ser um deus implacável e sim
amoroso, sujeito às minhas próprias leis.
Como Apolo, fui vítima de um amor impossível. Casado com
Reia, a deusa da fertilidade, apaixonei-me perdidamente por uma maravilhosa
ninfa: Filira, filha do Oceano. Quem não se encantaria com a suavidade e a
elegância dessas criaturas marinhas?
Como Apolo, também tentei ignorar a proibição a esse amor
e, para que Reia não descobrisse nosso romance, transformei Filira numa linda
égua e assumi a forma de um cavalo. Juntos, corremos ao longo das praias e colinas,
desfrutando da liberdade dos ventos e das emoções. Depois tivemos um filho,
Quiron. Ele nasceu centauro: metade homem, metade cavalo. Para escondê-lo da
ira de Reia, Filira escondeu-se numa gruta do monte Pélion, na Tessália.
A natureza de Quiron era excepcionalmente generosa. Sábio
desde a mais tenra idade, ele amava a ciência, a música, a filosofia e,
principalmente, a medicina, utilizando-a para ajudar os seres humanos. Era
ainda um mestre maravilhoso e tinha como principal discípulo Asclépio, que também
viera ao mundo com o dom da cura. Filho de Apolo, Asclépio nascera da união
secreta do deus com a jovem Coronis, filha do fundador da cidade de Pelégia. No
templo de Apolo, assistida pela deusa Ártemis, a jovem deu à luz Asclépio, que
logo foi levado à gruta mágica onde eram cultivadas ervas medicinais. O menino
cresceu sob a proteção do pai e do sábio Quiron. Logo se tornou um hábil cirurgião
e um estudioso das artes médicas. Daí Asclépio ser considerado entre vocês,
humanos, o grande protetor dos médicos. Atena, a deusa da sabedoria,
encantou-se com o menino e também decidiu ajudá-lo. Quando Perseu decapitou
Medusa, a destruidora, a deusa colheu o sangue das veias da górgona e ofereceu-o
a Asclépio, explicando-lhe:
- Querido afilhado, trouxe-lhe dois frascos contendo o
sangue da Medusa. Um deles contém o sangue extraído da veia esquerda. Se der
esse líquido a uma pessoa recém-falecida, você a trará de volta à vida. O outro
frasco contém o sangue da veia direita. Se der esse sangue a alguém, você a
matará instantaneamente, pois se trata de um líquido fatal. Tome muito cuidado
ao utilizá-lo.
Generoso, Asclépio jamais utilizou o líquido venenoso, ao
passo que recorreu várias vezes ao sangue da veia esquerda da Medusa para
salvar vidas. Mas isso nem sempre era necessário, porque bastava sua habilidade
para curar os feridos. Foram tantos os doentes curados por Asclépio que ele
logo se tornou profundamente amado pelos seres humanos. Essa nova devoção e,
principalmente, o fato de que o Inferno já estava começando a ficar meio vazio,
irritaram profundamente Hades, o senhor da morte.
- Este jovem ousa confrontar me - ele gritou certa noite,
nas profundezas do Inferno. –Juro que ele terá que pagar por isso!
Hades sabia ser impiedoso, e seu juramento, infelizmente,
teve consequências terríveis. Enquanto o deus da morte se queixava da força de
Asclépio a Zeus, deus do universo, em Creta um acidente acontecia.
Glauco, filho de Minos e Pasifaé, brincava feliz quando
avistou um camundongo. Fascinado pelo animal, decidiu segui-lo. O menino, distraído,
não viu um grande reservatório de mel e acabou por cair nele, afogando-se.
Minos procurou pelo filho durante longo tempo, sem conseguir encontrá-lo. Ninguém
vira Glauco sair correndo atrás do camundongo. Preocupada, Pasifaé pediu a
ajuda de Apolo, que tinha o dom da profecia. Assim que descobriu o menino
afogado no mel. Apolo chamou seu filho Asclépio.
- Venha, Asclépio, devolva a vida a esse pequenino.
Asclépio não hesitou e logo começou a preparar o
medicamento com o sangue da Medusa. Mal sabia ele que a alma do pequeno Glauco
já fora levada ao mundo subterrâneo de Hades. Quando o menino bebeu o líquido e
voltou à vida, o banquete realizado no Inferno em sua homenagem teve que ser
interrompido, o que provocou ainda mais a ira do deus da morte. Este se dirigiu
a Zeus, alegando:
- Caro Zeus, Asclépio está desafiando a ordem cósmica.
Glauco deveria morrer para que Minos sofresse a perda do garoto e assim se compadecesse
dos pais cujos filhos ele condena à morte no labirinto do Minotauro.
- Hades- disse Zeus - Asclépio desconhece as leis da morte
e talvez nem se importe com elas. Seu desejo é apenas curar, resgatar a vida,
não importa de quem ou por que.
- Então é preciso que ele morra! gritou - Só assim será
capaz de entender a importância de minha função divina. Não há vida sem morte. Seres
humanos são mortais e nós, deuses, não. Quando os humanos tentam nos imitar, o
universo se desequilibra. Apenas eu, deus dos fins e das perdas, sou capaz de
ensinar a humildade. Ninguém é mais justo do que eu! Ceifo a vida de todos,
ricos, pobres, doentes, saudáveis, tanto faz. E, assim, instauro a igualdade
entre as pessoas.
Zeus não soube como responder a esses argumentos. Na
verdade, como testemunhara do alto do Olimpo, também começava a se preocupar.
Se Asclépio continuasse grande conhecedor da arte médica, o Inferno ficaria vazio
e a Terra, superpovoada. Além disso, Hades também argumentou:
- Zeus, pai dos deuses e dos homens, senhor dos raios e dos
seus segredos. Logo, os homens se tornariam imortais como os deuses, e isso não
poderia acontecer.
Aborrecido porque, na verdade, também admirava o talento de
Asclépio, Zeus se viu obrigado a concordar com Hades e decretou a morte do Deus
da medicina. Asclépio foi impiedosamente fulminado por um raio. Contudo, para
que seus feitos jamais fossem esquecidos, Zeus o transformou numa maravilhosa
constelação. Por isso, até hoje a bondade de Asclépio continua a iluminar as
noites de sofrimento, oferecendo sua luminosidade celeste como promessa de cura
e esperança. Para homenageá-lo, os seres humanos transformaram o caduceu, o
bastão no qual Asclépio trazia sempre uma serpente enrolada, no grande símbolo
da medicina.
(Divinas desventuras - Outras histórias da mitologia grega.
São Paulo: Companhia das Letrinhas)
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