Prece do Brasileiro

Meu Deus,

só me lembro de vós para pedir, mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.

Desculpai vosso filho, que se veste de humildade e esperança e vos suplica: Olhai para o Nordeste, onde há fome, Senhor, e desespero rodando nas estradas entre esqueletos de animais.

Em Iguatu, Parambu, Baturité, Tauá (vogais tão fortes não chegam até vós?), vede as espectrais procissões de braços estendidos, assaltos, sobressaltos, armazéns arrombados e — o que é pior — não tinham nada.

Fazei, Senhor, chover a chuva boa, aquela que, florindo e reflorindo, soa qual cantata de Bach em vossa glória e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca, ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel: a terra estorricada sempre amada.

Fazei chover, Senhor, e já!, numa certeira ordem às nuvens. Ou desobedecem a vosso mando, as revoltosas? Tudo é pois contestação? Fosse eu Vieira (o padre) e vos diria, malcriado, muitas e boas… mas sou vosso fã omisso, pecador, bem brasileiro.

Comigo é na macia, no veludo/lã e, matreiro, rogo, não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre), mas ao Deus que Bandeira, com carinho, botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.

E mudo até o tratamento: por que vós, tão gravata-e-colarinho, tão vossa excelência?

O você comunica muito mais e, se agora o trato de você, ficamos perto, vamos papeando como dois camaradas bem legais, um, puro; o outro, aquela coisa, quase que maldito, mas amizade é isso mesmo: salta o vale, o muro, o abismo do infinito.

Meu querido Jesus, que é que há? Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo a mesma eterna pena?

E você me responde suavemente: Escute, meu cronista e meu cristão: essa cantiga é antiga e de tão velha não entoa, não.

Você tem a Sudene abrindo frentes de trabalho de emergência, antes fechadas. Tem a ONU, que manda toneladas de pacotes à espera de haver fome.

Tudo está preparado para a cena dolorosamente repetida no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.

No entanto, você sabe, você lê os jornais, vai ao cinema, até um livro de vez em quando lê, se o Buzaid não criar problema: Em Israel, minha primeira pátria (a segunda é a Bahia), desertos se transformam em jardins, em pomares, em fontes, em riquezas. E não é por milagre: obra do homem e da tecnologia.

Você, meu brasileiro, não acha que já é tempo de aprender e de atender àquela brava gente fugindo à caridade de ocasiãoe ao vício de esperar tudo da oração?


Jesus disse e sorriu. Fiquei calado. Fiquei, confesso, muito encabulado, mas pedir, pedir sempre ao bom amigo é balda que carrego aqui comigo.

Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro. Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar noutro caso, mais sério, mais urgente.

Escute aqui, ó irmãozinho. Meu coração, agora, tá no México batendo pelos músculos de Gérson, a unha de Tostão, a ronha de Pelé, a cuca de Zagalo, a calma de Leão e tudo mais que liga o meu país a uma bola no campo e uma taça de ouro.

Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça sem milagre ou com ele nos pertença para sempre, assim seja… Do contrário ficará a Nação tão malincônica, tão roubada em seu sonho e seu ardor que nem sei como feche a minha crônica.

Carlos Drummond de Andrade, 30/05/1970

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