Histórico Escolar

  Lourenço Diaféria

No começo me chamavam Juquinha e tinha um seio redondo e cheio que me matava a fome. Depois o seio secou. Ganhei uma chupeta.

Depois me levaram a chupeta. Fiquei com o dedo na boca. Até que um dia, meu irmão, diz que sem querer, prensou meu dedo no berço. E eu fiquei sem unha.

Depois levaram meu pai. Eu não estranhei. Não via meu pai a não ser quando ele chegava daquele jeito. Ele não fez falta a não ser à minha mãe.

Depois levaram meu tio que ajudava a minha mãe – ela dizia sempre: “Pede a bênção pro tio, filho, ele é que ajuda a gente” –, mas um dia o tio deve ter-se aborrecido e voltou para a terra dele. Deixou uma foto e uma carta que minha mãe não mostrava a ninguém.

Depois levaram o pé de caqui e um caramanchão de chuchu que havia no fundo do quintal, onde meu irmão, minhas irmãs e eu brincávamos o tempo todo.

Depois levaram o quintal. Acharam que o quintal não servia para nada a não ser para juntar com outros quintais e construir uma fileira de sobrados idênticos.

Depois levaram a mesa de fórmica, e o rádio, e as quatro cadeiras.

Depois levaram meus avós para outro lado do rio.

Depois me levaram para vender amendoim nos trens da Rede Ferroviária e para observar quem tinha correntinha no pescoço, ou relógio no pulso, e voltar para avisar o moço que ficava encostado na porta do terceiro carro. Depois me mandaram ficar encostado na porta do terceiro carro e ficar olhando bem como é que se faz.

Depois levaram minha mãe. Nem quis ver. Tenho nojo de defunto.

Depois levaram os campos de várzea onde a molecada batia bola.

Depois levaram meu pente e meu cinto.

Depois me levaram para a escola. Fiz até a segunda série. Não fui além por falta de lápis de cor; e por que a escola tinha uns caras que ficavam gozando da minha cara, até que eu me esquentei.

Depois eu levaram uma caixa de papelão cheia de coisas que eu estava juntando fazia tempo.

Depois eu levei a caixa de engraxate de um pivete e ele disse que ia me acertar. Mas eu acertei ele primeiro.

Depois eu levei um tempão não indo mais para o centro da cidade para não dar bandeira.

Depois eu levei carrinhos de freguesas em supermercados e levava minhas gorjetas.

Depois eu levei uma fechada de um bacana no volante e o fulano olhou para mim com cara de quem está desconfiado de que o carro não é meu e de que eu não tenho carteira de motorista.

Depois eu levei um tiro, que passou longe.

Depois eu levei uma Mauser enrustida na bolsa de plástico.

Depois levaram o circo Garcia.
Mas antes eu levei o dinheiro da bilheteria.

Depois eu levei um susto. Eles chegaram e foram pedindo um documento.

Depois é o depois.

Depois tem gente que fala que não existe destino. Se eu tivesse lápis de cor. Se não tivessem acabado os campos de várzea e as traves. Se eu não tivesse que vender flor de noite em restaurante, hoje eu bem que poderia ter tirado curso no SENAI, ou ter barraquinha de fruta, ou jogar no time do Santo André. O problema é que eu fui obrigado a parar no terceiro ano. Naquele tempo, todo mundo me chamava de Juquinha. Vê se pode?!


QUESTÕES

  1. O texto utiliza a repetição do advérbio “Depois” como um recurso enriquecedor. Essa repetição reforça:
    (a) As passagens do tempo na vida do garoto.
    (b) A sucessão de vitórias obtidas pelo garoto.
    (c) As ações que ocorrem de acordo com o crescimento e com as vitórias que Juquinha conquistava.
    (d) A ideia de que cada aprendizado na escola da vida fazia com que ele passasse de “série”, até tornar-se um bandido, o mais alto grau de escolarização que ele pôde obter.

  2. À medida que o tempo vai passando, o que você vai notando sobre a vida do garoto?

  3. O relacionamento de Juquinha com seu pai era bom? Justifique sua resposta.

  4. Juquinha, de acordo com a passagem do tempo, vai sofrendo muitas perdas. Quando ele conta que perdeu a sua unha, afirma: “Até que um dia, meu irmão, ‘diz que sem querer’, prensou meu dedo no berço”. A frase em destaque quer insinuar o quê?

  5. “Nunca via meu pai a não ser quando ele chegava daquele jeito.” A que jeito o narrador dessa crônica provavelmente se refere?

  6. Por que a mãe de Juquinha nunca mostrava a carta do “tio” a ninguém? Que tipo de relação podemos depender (imaginar/supor) que existia entre a mãe e esse suposto tio do garoto?

  7. “Depois levaram o quintal. (...)”. Esse trecho denuncia uma realidade comum em grandes cidades. Ela demonstra o processo:
    (a) De reflorestamento da mata atlântica.
    (b) De favelização e de ocupação desordenada dos espaços urbanos, por diversos motivos.
    (c) De desocupação obrigatória dos pobres, para construção de grandes complexos industriais e fazendas de soja.
    (d) Desocupação obrigatória para construção de empresas multinacionais, no ano de 1979.

  8. Relacione o 11º parágrafo com o último. Se não tivessem destruído os campos de Várzea, o futuro de Juquinha poderia ter sido diferente?

  9. Juquinha vai perdendo coisas na vida e vai ganhando experiência e aprendizado, mas ele não aprende nada na escola formal. Indique o(s) trecho(s) ou o(s) parágrafo(s) em que o menino é ensinado a roubar. Depois, explique como era o processo de aprendizado nessa “escola do crime”.

  10. A partir do texto podemos perceber que Juquinha cometeu um assassinato. Retire da crônica o trecho que comprova essa afirmativa.

  11. Juquinha, num certo contexto, afirma: “depois é o depois”. Essa frase pode significar o quê, na sua opinião?

  12. Justifique o título do texto.


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